13 de out de 2016

O medo nosso de cada dia

Há medos que fazem parte da vida cotidiana, enquanto outros dizem respeito ao trabalho analítico. O desafio está, primeiramente, em reconhecer essa presença incômoda. Em seguida, vem a procura pela capacidade negativa, descrita por Keats e sugerida por Bion.


"FREUD EXAMINOU ALGUNS MEDOS, ESTUDANDO RITUAIS DE POVOS PRIMITIVOS E COMPARANDO-OS COM AS EXPRESSÕES DA NEUROSE OBSESSIVA"


Em inúmeras passagens da literatura e da vida, o medo é o personagem principal. Se tomarmos, por exemplo, O Alienista, de Machado de Assis, o medo perpassa toda a trama desse conto magistral.

Em Totem e Tabu (1913), Freud examinou algumas possíveis raízes de muitos medos humanos, estudando rituais de povos primitivos e comparando-os com as expressões da neurose obsessiva, encontrando na base de ambos a presença da ambivalência emocional e mostrando como desejos agressivos, muitas vezes homicidas, transformavam-se, a partir da repressão, em medos variados. Descrevendo tabus de vários povos, Freud ilustrou como é possível entender situações tão prevalentes até hoje, como a aversão aos mortos, aos fantasmas, aos demônios, ao sangue e à noite. Descreveu também um sistema de pensamento que seria próprio dos povos primitivos, o animismo, no qual se evidencia a crença imensa no poder dos próprios desejos, e a presença da magia e da onipotência do pensamento.

Em outro momento de sua obra, Freud (1919) estudou, com a sua argúcia habitual, o fenômeno do estranho, que se relaciona com o que é assustador, com o que provoca medo e horror. Embora traduzido como o estranho, ou o sinistro, o título em alemão é Das Unheimliche, ou seja, o não familiar. Lançando mão de várias fontes literárias, Freud conclui que o estranho, o temido, não é nada novo ou alheio, porém algo que é familiar e há muito estabelecido na men­te, e somente se alienou através do processo da repressão, ou seja, algo que deveria permanecer oculto, mas veio à luz.

Um tema muito caro a Freud, e que aparece em vários momentos de sua obra é a questão do desamparo humano. Em O Futuro de uma ilusão (1927), acompanhamos sua análise desse estado de desamparo que é fonte motriz da construção das idéias religiosas, por destacar a impotência humana face à natureza.

Nosso primeiro desafio é justamente reco­nhecer a presença incômoda e diária do medo. Não gostaríamos de senti-lo, mas não podemos fugir da triste constatação de que temos medo desde que acordamos até a hora de dormir, e ainda assim o sono nos serve de matéria para outra classe de medos.

VOCÊ TEM MEDO DE QUÊ?

Dentre os medos nossos de cada dia poderíamos encontrar, além dos já citados, os de não acordar, de chegar atrasado, de adoecer, de ser atropelado, de receber uma bala perdi­da, de ser assaltado, de ouvir uma frase ríspi­da, de ser obrigado a responder com outra fra­se ríspida, de não ter tempo para comer, de ter tempo para comer demais, de não fazer exercícios físicos, de não ter trabalho suficiente, de ter excesso de trabalho, de não saber dizer ‘não’, de não saber dizer ‘sim’, de envelhecer, de não envelhecer e morrer antes, de morrer, de não morrer nunca - enquanto todos ao re­dor já morreram...

Alguns desses medos fazem parte da vida diária, enquanto outros dizem respeito ao tra­balho analítico. Nesse particular campo bi-pessoal que construímos com cada paciente, há vários medos possíveis, mas talvez o mais difícil de admitir e administrar ocorra quando estamos em momentos de não compreensão, como descreve Betty Joseph, ou de impasse, em suma, de cegueira, como no clássico quadro de Breughel, no qual um cego conduzia cegos.

Tanto no que diz respeito aos medos nossos de cada dia, quanto aos medos nossos de cada sessão, uma vez identificados e aceitos como tal, talvez a segunda tarefa a ser enfrentada é a busca da capacidade negativa, descrita por Keats e sugerida por Bion.

Essa urgência por fazer algo e se desfazer do medo indica uma dificuldade em aceita: essa realidade incômoda, não tolerar a sua existência, além de mostrar a nossa neces­sidade de compartilhar esse estado mental com o paciente. Em seu trabalho sobre a capacidade de estar só, Winnicott (1958 descreve que esta é uma característica do amadurecimento, que tem origem na possi­bilidade de o bebê sentir-se só na presença da mãe, após ter sido bem amamentado, mais tarde em conseguir manejar os sentimantos despertados pela cena primária e que em termos kleinianos, pode ser entendido como o estabelecimento de um bom objeto; interno, ou em termos do próprio autor, no desenvolvimento da crença na existência de um ambiente benigno e protetor. Compara este sentimento ao estado que sucede a uma relação sexual prazerosa, quando ambos os parceiros se permitem momentos de estarem sós, embora juntos um do outro.

O RITMO DO MEDO

Penso que na sessão analítica, esses mo­mentos de silêncio são de grande significado, porque permitem ao paciente e ao analista compartilhar sentimentos, como o de medo, mas cada um vivendo-o e sentindo-o a seu modo. O silêncio, a reflexão, a espera, o rit­mo de cada um, o tempo necessário para que as comunicações se façam, a tolerância com o não saber e com o sentir sentimentos desa­gradáveis ou penosos como o medo consti­tuem indícios de que um processo analítico está em marcha.

Assim, face aos medos nossos de cada dia, seria desejável que não necessitássemos negá-los ou evacuá-los rapidamente, mas antes admiti-los e reconhecer sua presença, talvez aprender a conviver com eles, buscar entender a sua na­tureza e a sua origem, procurar formas de pro­teger-se de situações de perigo real usando o medo como indicador, não deixar que o medo nos domine nem paralise, não se submeter a ele sem um exame objetivo da realidade interna e externa que o alimenta, e afinal aceitar que, às vezes, quando se sente medo deve-se também poder optar por ir à luta.


"A URGÊNCIA POR FAZER ALGO E SE DESFAZER DO MEDO INDICA UMA DIFICULDADE EM ACEITAR ESSA REALIDADE INCÔMODA E NÃO TOLERAR A SUA "
Dano psíquico

*O excesso de medo pode se tornar um enorme problema na vida de uma pessoa. Como, por exem­plo, a cleptofobia, que caracteriza a aversão e medo mórbido irracional, desproporcional persistente e repugnante de ser roubado, cometer furto, ou de estar em débito. Este tipo de compor­tamento, se não tratado adequada­mente, causa gran­de dano psíquico ao indivíduo.

*Ao invés de negar o medo, essa sensação pode nos ajudar a nos proteger de situações de perigo real, quando é necessário não deixar que o medo nos domine nem paralise.
*Em 0 Futuro de uma ilusão (1927), Freud analisa o estado de desamparo que é força motriz da construção das idéias religiosas, por destacar a impotência humana face a natureza.





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