13 de out de 2016

Medos: de onde vem e o que fazer com eles

Como pensar sobre este sentimento universal, que conhecemos tão bem na própria pele, mas que, ao mesmo tempo, é um tema complexo sob o ponto de vista da psicanálise, tanto no âmbito da teoria quanto no âmbito da técnica.

Sentimos algum tipo de medo nos vários papéis que desempenhamos em nossas vidas e ele nos acompanha em todas as fases do desenvolvimento. Alguns são plenamente justificados do ponto de vista de ameaças externas a que estamos sujeitos e temos que aprender a viver com eles. Outros se apresentam difusos, sem que se consiga localizar uma fonte numa primeira aproximação. Outros, ainda, se acoplam em situações externas que aparentemente justificam o sentimento, mas que acabam revelando sua motivação interna pela intensidade desproporcional que assumem.

REAL VERSUS PSÍQUICO

O que pretendo destacar é o desafio que encontramos no nosso trabalho diário, de buscar um sentido para os vários medos que se apresentam, tentando ao máximo evitar a dicotomia real x psíquico, interno x externo, que tanto limita a compreensão de qualquer fenômeno mental. 

Transitamos nos vários espaços e nos constituímos no entrelaçamento entre eles. Contrariamente à imagem que habita o imaginário popular, psicanalistas não são aqueles que reduzem tudo a um suposto “psicológico”. Ao menos, tentamos não ser. Outra dificuldade que não pode ser desconsiderada é que não podemos isolar, na realidade de cada sessão, um único sentimento. O que encontramos são inúmeras relações entre vários sentimentos com predomínio de um ou outro em momentos diferentes.

Velho acompanhante de todo ser humano o medo é sinal permanente da situação de desamparo em que nascemos e marca nossa incompletude durante toda a vida. A fantasia de que no momento em que “formos grandes” seremos fortes e poderosos, inevitavelmente vai se desmanchando à medida em que crescemos e os medos não desaparecem. 

É verdade que, ao longo do desenvolvimento, os medos se sintetizam em torno de problemáticas diferentes (medo de abandono, medo de castração, medo de perda do amor do objeto, etc.), mas mantém sua essência básica, ao como dependemos do outro e não somos autossuficientes, onipotentes. Assim, permanecem como um lembrete de nossa fragilidade e impotência, de nossa incapacidade de controlar o mundo a nossa volta e nosso próprio mundo psíquico. Neste sentido, todos os medos podem ser remetidos a alguns temores básicos, que vão sendo projetados, deslocados, condensados, simbolizados, num número infinito de combinações possíveis. 

Ao procurar um analista, o paciente soma aos seus medos, aqueles próprios da nova situação. Ao receber um paciente, o analista também precisa enfrentar os seus medos.

Há uma vasta categoria de medos essenciais que compartilhamos com o paciente. Entre eles, se destaca o medo do desconhecido, do não familiar. Como analistas, vamos ser capazes de compreender o paciente e auxiliá-lo, ou vamos sofrer quebras pequenas, médias ou grandes na nossa onipotência? Este recurso para evitar o medo do desconhecido, que é parte constituinte do nosso arsenal para enfrentar o mundo, camufla o que realmente se passa: nunca somos exatamente os mesmos do instante anterior, e o paciente também nunca se repete da mesma forma.

No balanço entre querer entrar em contato com sua realidade psíquica e, ao mesmo tempo, evitar sofrimento, o paciente se refugia em seu arsenal defensivo. Como psicanalistas, usamos a proteção (que se espera seja usada por breves períodos de tempo e logo abandonada) das teorias psicanalíticas e da assimetria da relação. As teorias fornecem um suporte essencial, organizador, desde que não sejam usadas de forma fechada, com a crença de que detemos um saber que nos torna livre de medos do desconhecimento. Ao estabelecer este tipo de relação com as teorias, o psicanalista evita o contato com emoções, com o novo que pode emergir a qualquer momento e que nos assusta. A assimetria da relação analítica pode ser usada também de uma forma defensi­va, porque dá margem a que se mantenha uma posição aparentemente segura, confortável: eu não sou o paciente, ele é quem sente medo e precisa de ajuda. Esta posição tentadora, se idealizada, é um risco. Se acreditarmos nela, transformamos a assimetria necessária à rela­ção analítica, num refúgio narcísico.

A assimetria pressupõe uma perspectiva di­ferente: espera-se que possamos dar um outro destino para os mesmos medos que compar­tilhamos com o paciente, como bem lembrou Bion ao usar o modelo do oficial no campo de batalha. O oficial sente o mesmo medo que seus soldados, mas espera-se que esteja capacitado a dar um destino diferente aos temores, buscando estratégias, não se deixando paralisar. Um ofi­cial que não tiver acesso a seus próprios medos não tem como saber do perigo e da necessidade de medidas protetoras. E o mesmo que espera­mos poder oferecer aos nossos pacientes: não estratégias prontas para evitar/enfrentar os me­dos, más a possibilidade de não se desesperar, de manter em atividade o processo de pensar.

Assim, é preciso também que se resgate a função protetora do medo. Ele deve ser acolhi­do como um companheiro fundamental, que nos resguarda dos riscos da crença nas fanta­sias onipotentes e nos auxilia no mapeamento daquilo que nos ameaça. É verdade que nem sempre este sinalizador funciona de maneira ra­zoável, tornando-se um conselheiro angustiado, cego, sem capacidade de discernimento. Mas longe de pensarmos que este é um motivo para desejarmos que desapareçam, como muitas ve­zes os pacientes anseiam (e nós pensamos poder conseguir), é bom termos em mente o quanto precisamos deles para a nossa proteção. Esta é uma noção clara para todos os envolvidos no cuidado de crianças. E parte essencial do pro­cesso educativo desenvolver na destemida crian­ça uma noção de riscos e da necessidade de que eles possam ser detectados. Em muitas situações, precisamos auxiliar os pacientes a perceberem quando estão correndo perigo evidente, o que fica mais ainda em destaque no atendimento de adolescentes, em função da característica oni­potente de seus processos de pensamento.

Assim, localizamos na clínica não só os medos em seus mais variados matizes e imen­sidades. Encontramos com igual intensidade, o medo de sentir medo, a falta de espaço mental capaz de tolerar afetos dolorosos e ameaçadores e podemos pensar que todo nosso trabalho começa procurando abrir o maior espaço psíquico possível para acolher os medos, diminuindo o “medo de sentir medo”. Através do aumento da capacidade continente, que possibilita que ele não seja evitado (por meio de inúmeros pro­cessos defensivos), aumenta a possibilidade de conhecer a sua natureza mais verdadeira, menos distorcida. A mente, alimentada com verdade, pensa utilizando dados mais confiáveis e pode buscar soluções mais consistentes.

PROCEDÊNCIA E RAZÕES

Uma parte importante de nosso trabalho é buscar construir/desenvolver uma função que processe o sentimento doloroso, não o rechace, verifique se sua intensidade está corretamente avaliada, qual é sua procedência e as razões para que esteja presente. Inicialmente, “emprestamos” nosso aparelho psíquico para o paciente, espe­rando que possa introjetar um modo de funcio­namento que contém a emoção para poder de­pois processá-la. Busca-se, em última instância, por meio do desenvolvimento desta função, a utopia de restringir os medos àqueles inevitáveis e necessários. Este processo só é possível se nós, como analistas, pudermos enfrentar, junto com o paciente, a inevitabilidade de temer e a crença na possibilidade de usar este sentimento como matéria-prima para o crescimento psíquico.


Origem do Medo

No livro 0 que você está fazendo com a sua vida?O filósofo e escritor J. Krishnamurti procura en­tender a origem do medo. Em trecho do livro, ele divaga como o medo do amanhã, de perder o emprego, da morte, da doença, da dor é gerado? O medo envolve um processo de pensamentos sobre o futuro, ou sobre o passado. “Tenho medo do amanhã, do que pode acon­tecer. Tenho medo da morte que ainda está longe, mas mesmo assim me amedronta. Bem, o que é que gera esse medo? O medo sempre existe em relação a alguma coisa. Temos medo do amanhã, do que passou e do que está por vir. O que cria o medo? Não é o pensamento? O pensamento é a origem do medo”

"Maturidade e controle sobre seus próprios medos: no exército, por exemplo, espera-se que o oficial saiba lidar com seus temores e controle a situação, embora todos saibam que ele sente o mesmo medo que seus soldados."

Fonte: Revista Ciência e Vida encadernada, nº 01, Dossiê do medo.

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