23 de out de 2016

A clínica psicanalista dos medos

Expressões da angústia - podem ocorrer como uma expectativa ansiosa, uma sensação de mal-estar, ou até mesmo uma crise aguda, onde o pânico é o representante maior da
intensidade do medo - são frequentes nos consultórios.

O medo é um sentimento que acompanha o ser humano em maior ou menor grau de intensidade por toda a vida, e está relacionado diretamente à reação afetiva da angústia. O termo alemão Angst, usado por Freud em muitos dos seus textos, significa, em sentido literal, ‘medo’. Porém, foi traduzido para o português como ‘ansiedade’, ou angústia’. Etimologicamente, na raiz indo-europeia, Angst se refere a ‘apertar’, ‘amarrar’. No latim, desta mesma raiz, derivam, as palavras ‘angina’ e ‘angústia’.



Esta breve digressão é para salientar que os termos ‘medo’ e angústia são difíceis de diferenciar, e muitas vezes são usados para descrever uma mesma situação. A angústia gera uma sensação de desprazer descrita por suas reações físicas, tais como aperto no coração, taquicardia, falta de ar, que também se relacionam com o medo.

Em princípio, o medo cumpre uma função protetora que impele o indivíduo à ação para se
proteger. Não sentir medo de nada é colocar-se num estado de vulnerabilidade e risco, evidenciando uma falha na capacidade de avaliação crítica por parte do eu (ego). A questão fica mais complexa quando se tenta delimitar o que é o medo adequado a serviço da proteção da integridade física e psíquica e quando se trata de um sintoma.

TENSÃO E ANGÚSTIA

No decorrer da obra freudiana, a questão da angústia teve vários desdobramentos. Inicialmente estava atrelada a um aumento de tensão provocado pela libido represada. O
acúmulo de tensão gerava desprazer e, consequentemente, surgia a angústia. Esta noção
sofre transformações quando Freud postula que a angústia é uma reação frente a um
perigo, enfatizando, que diante de um perigo externo pode-se empreender fuga, porém,
quando o perigo representa uma ameaça interna, cabe ao psiquismo tomar providências para afastar o mal-estar que se apresenta sob a forma de angústia. Para definir esta situação, Freud faz referência à angústia como um esta­do afetivo de expectativa sem um objeto definido, enquanto que o temor, Furcht, em ale­mão, é mais específico, e se caracteriza por ter um objeto definido. Neste sentido, considera a angústia realista proveniente de um perigo conhecido, e a angústia neurótica como resul­tante de um perigo desconhecido, subjetivo. Entretanto, com frequência, a angústia real e a dita neurótica acham-se mescladas, super postas e influenciam-se mutuamente.

Na clínica, encontramos expressões da an­gústia que podem ir desde uma expectativa ansiosa, sensação de mal-estar, até uma crise aguda, onde o pânico é o representante maior da intensidade do medo. A pessoa assume uma postura crítica frente à situação, percebe a des­proporção de seu temor, mas, ainda assim, não consegue lidar com a angústia que a invade. Estas circunstâncias tornam-se ainda mais complexas quando existe um fato real que foi traumático, e, a partir disso, cada situação as­sociada a tal fato desencadeia o medo. Quando já existia certo temor a algo, viajar de avião, por exemplo, e a pessoa experimentar um voo que tenha alguma espécie de problema, às vezes apenas uma turbulência maior que a esperada, ou mesmo a notícia de um desastre aéreo, in­tensificam o medo que pode tornar-se fator im­peditivo para a pessoa embarcar num avião.

Quando o medo é excessivo, limitante e, de fato, restringe a vida do sujeito, as causas precisam ser procuradas nos registros psíquicos do seu desenvolvimento emocional. É sobre as situações experienciadas como traumáticas, particularmente dos anos iniciais da infância, que se encontram as fraturas emocionais revi­vidas ao longo da vida.

Nos medos da vida adulta, que são aparen­temente desproporcionais e incompreensíveis, encontramos os temores infantis reeditados. O desamparo e a castração, marcas inexoráveis da condição humana, vão se expressar de distintas formas ao longo da vida. O medo do abandono, de perder a quem se ama, ou de deixar de ser amado, de adoecer, de ser criti­cado, de fracassar, de morrer, sao sentimen­tos inerentes à própria existência. Entretanto quando essas situações geram uma intensa angústia, precisam ser compreendidas como expressão do traumático infantil que se reproduz na atualidade.

A CASTRAÇÃO

Nos tempos atuais, regidos pela rapidez e pela exigência de sucesso, o medo de fracassar, vivido como uma castração, e de não se: amado em função do insucesso, assim como
da crítica interna e alheia, expõe o sujeito a situações que podem resultar em sintomas fóbicos ou até em ataques de pânico. Em contrapartida, o próprio sucesso também pode ser amedrontador. O êxito pode resultar em angústia e temores de perda e punição. Não é raro encontrarmos pessoas que ao viver o tão esperado momento de realização de seus objetivos sentem-se ameaçadas e o prazer do que foi alcançado é obscurecido pela angústia.

As fobias, episódios relativamente comuns na infância e que tendem a ser transitórios, podem persistir em outras etapas da vida. O sintoma fóbico é uma defesa frente a um impulso inconsciente, percebido pelo ego como perigoso, que é projetado no mundo exterior e fica então vinculado a uma situação ou objeto externo. Este processo defensivo, justamente por ser inconsciente, não é percebido pelo sujeito. Embora esta operação psíquica acarrete restrições à liberdade pessoal é ainda uma saída encontrada para controlar a angústia que fica circunscrita ao objeto temido. O medo sem sentido, desconhecido, é ainda mais insuportável e aterrorizante.

No vasto campo dos temores fóbicos, que podem se apresentar em qualquer quadro psíquico, é importante reconhecer qual o impulso que está subjacente à formação do medo, do que o sujeito precisa se defender. Nas relações amorosas, território em que as tramas do desejo e da interdição possuem ainda mais força, o temor de ser abandonado, da perda do objeto de amor pode provocar uma grande dependência do outro ou ter efeito contrário, resultando na dificuldade do sujeito em estabelecer vínculos mais sólidos e duradouros. A proximidade pode representar um perigo, então na tentativa de manter uma “distância ideal”, pode haver um afastamento, ou mes­mo um rompimento da relação. Muitas vezes em relacionamentos amorosos, que estão num crescente envolvimento, o bem-estar e o pra­zer dão lugar à angústia, determinando um desfecho incompreensível, pelo menos para um dos parceiros.

A situação extrema do medo ocorre no ata­que de pânico, onde há um transbordamento de angústia que paralisa o pensamento e a ação. O psiquismo é invadido e o sujeito fica imobilizado e impotente nestas circunstân­cias. A sensação de desamparo se expressa pelo medo de morrer.

Abordar os medos na clínica psicanalítica implica poder compreender de forma empática o sofrimento de cada indivíduo. E atra­vés da experiência emocional singular que o processo psicanalítico proporciona que se criarão novas possibilidades de enfrentamento da angústia. E no vínculo transferencial estabelecido entre analista e analisando que se busca construir um sentido para a angústia que o medo provoca. E importante nome­ar o medo, descobrir sua origem para poder transformar os temores infantis em limitações toleráveis da vida.

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Castração em Freud

♦ Freud aplicava o termo ‘castração’ com o sentido de angústia e medo da criança frente ao membro sexual masculino e aos seus impulsos se­xuais incestuosos.

A menina culpa a mãe pela castra­ção e destina a ela comportamento de agressividade. Também sente inveja do falo masculino por não tê-lo e, desta forma, aproxima-se do pai. Já o menino sente medo de ser castrado e perder este ‘poder’ que causa inveja. Este complexo mostra como o medo e inveja passeiam no inconsciente infantil desde cedo



A falta de medo também pode representar perigo. Evidencia uma falha na capacidade de avaliação crítica do próprio ego e faz com que a pessoa se coloque em situação de risco constantemente

A intimidade é vista, por muitos casais, como uma faca de dois gumes. Ela pode dar uma liberdade perigosa para o relacionamento, tornando-se um perigo. O que era um sentimento de felicidade dá lugar para angústias, medos e brigas.

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